A MARCHA BATIDA DO CAVALO MANGALARGA MARCHADOR
– PASSADO, PRESENTE, FUTURO
PASSADO
No inicio da formação da raça M. Marchador, meados do seculo IX, o andamento predominante era o trote, por influencia genetica do cavalo fundador da raça, de nome Sublime, puro sangue da raça Alter Real, uma derivação da raça Andaluz.
Gradativamente, a marcha de triplices apoios foi sendo consolidada, atraves de cruzamentos entre descendentes de Sublime e éguas nacionais, de sangue Bérbere. Ha registros historicos, atraves de figuras, comprovando que a andadura era prevalente em muitos exemplares de sangue Bérbere. Assim, todas as modalidades de andamento marchado, entre a andadura e o trote, foram sendo produzidas, lembrando que a genetica do trote é dominante e a da andadura é recessiva.
A marcha prevalente no Sul de Minas foi a do tipo batida, mais adequada ao equilibrio dos animais ao longo das trilhas sinuosas e ingremes das montanhas. Naquela epoca, a marcha batida ideal, buscada pelos selecionadores antigos, apresentava boa dissociação, garantia da boa comodidade, sem perda do equilibrio. Comodidade, equilibrio e vigor na movimentação constituiam o trinômio da seleção funcional de bons marchadores, aptos as longas cavalgadas daquela epoca, quando o cavalo de sela era um dos principais meios de transporte. Estes tres atributos tambem eram muito apreciados para lida de campo e nas caçadas de veados campeiros, o principal esporte equestre praticado naqueles tempos na vasta região sul mineira.
Assim, a comodidade do “andar”, na marcha batida classica, porque era a original da formação da raça M.Marchador; aliada ao bom equilibrio e vigor dos deslocamentos; ao porte mediano, adequado a montaria por pessoas de todas as alturas; e ao temperamento ativo e docil, eram os principais atributos que direcionavam a seleção da nova raça, ainda sem um Padrão Racial oficialmente definido, que pudesse orientar a seleção morfologica.
A fase inicial da formação da raça Mangalarga Marchador prolongou-se ate meados do seculo XX, quando foi fundada a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Marchador da raça Mangalarga. Todavia, este nome foi infeliz, pois subentendia-se ser o cavalo Mangalarga Marchador pertencente a raça Mangalarga, cuja associação brasileira foi fundada em 1934. Alguns anos depois o nome foi alterado.
O principal motivo da fundação da associação foi a divergencia dos criadores sul mineiros com o andamento definido no Padrão Racial da raça Mangalarga – Marcha Trotada.
Na primeira metade do seculo XX estavam devidamente formadas as linhagens pilares e antigas da raça Mangalarga Marchador, a maioria delas apresentando a marcha original de triplices apoios definidos, que variava do ideal da marcha batida classica ate a marcha picada de bom equilibrio, estando a marcha de centro situada entre ambas.
Mesmo sem o conhecimento da definição academica de uma terceira modalidade de marcha – a marcha de centro, que alguns antigos criadores chamavam de marcha verdadeira, os antigos Padrões Raciais valorizavam esta modalidade mais pura, a marcha de centro, ao estabelecerem “deslocamentos alternados de bipedes diagonais e laterais, intercalados por triplices apoios.
PRESENTE
A partir do final da segunda metade do seculo XX, e ao longo da primeira decada do seculo atual, notou-se uma drastica mudança no tipo de andamento premiado nas exposições. A marcha de deslocamentos nitidamente dissociados, alternando apoios diagonais e laterais, resultando na boa definição dos triplices apoios, perdeu valor em relação à marcha de deslocamentos nitidamente diagonalizados. A partir daquela epoca, o final da segunda metade do seculo passado começaram os modismos de linhagens de geneticas exoticas, culminando aos dias de hoje, com predominio de infusões de sangue da raça Mangalarga, atraves de criatorios que antigamente não registravam seus animais na raça ABCCMM, por preferirem o Padrão Racial da raça Mangalarga (paulista).
Na teoria, o proprio Padrão Racial da atualidade confunde o selecionador,ao inves de direciona-lo com objetividade, como deveria ser o papel de um Padrão Racial. Ha incoerencia em estabelecer como caracteristicas ideais: “avanço sempre em diagonal e tempos de apoio dos bipedes diagonais maiores que os laterais, com movimento discreto de anteriores”. Primeiro, não ha sintonia com deslocamentos alternados de bipedes em diagonal e lateral, como estabelecido na definição do andamento. Segundo, o movimento de anteriores que predomina na maioria dos animais não é discreto. Pelo contrario, é de flexão e elevação extremas, que é movimento tipico da marcha trotada.
Na pratica, sob olhares indiferentes dos orgãos administradores do que deveria ser o melhoramento zootecnico da raça Mangalarga Marchador, os arbitros premiam ao bel prazer, impunes, as vezes sob aplausos, os exemplares de marcha diagonalizada, sem apoios duplos laterais, enquadrando-se, tecnicamente, em andamentos definidos como marcha trotada, trote desunido ou ate mesmo no trote convencional.
A origem desta preferencia pela maioria dos atuais arbitros da raça Mangalarga Marchador pode ser entendida. Primeiro, como falta de comprometimento dos mesmos com os ideais de marcha que forjaram esta raça. Os arbitros da nova geração desconhecem o que seja a marcha batida classica, ou seja, julgam sem referencia da marcha original da raça, pois muitos jamais montaram em um exemplar portador da marcha batida classica. Segundo, pela falha na interpretação da definição de andamento no Padrão Racial, pois não sabem interpretar a essencia do andamento marchado puro – alternancia de deslocamentos diagonais e laterais. Terceiro, por orientações erradas da ENA – Escola Nacional de Arbitros, inclusive por um militar que ja foi instrutor, dentre outros que marginalizaram a marcha de triplices apoios ao darem prioridade às provas funcionais como função principal da raça Mangalarga Marchador.
Uma pratica de manejo prevalente nos haras é a de alterar a marcha natural herdada pelos potros (as). Atraves do uso de diversos artificios, marchas do tipo picada e de centro são mudadas para marcha batida diagonalizada. Como a marcha ensinada geralmente não é de qualidade, muitos animais perdem o estilo correto, e/ou a comodidade, pelo excesso de diagonalidade.
FUTURO
Pelo “andar da carruagem”, lamentavelmente, o futuro é obscuro para a media de qualidade de andamento da raça Mangalarga Marchador nas exposições. A marcha diagonalizada tornou-se uma cultura, e mudar cultura prevalente nas novas gerações de criadores é quase que impossivel. Os adeptos da marcha batida diagonalizada estão indiferentes ao estrago genetico que este tipo de andamento produz, a curto prazo, nos planteis. A cada nova geração de produtos nascidos, é drasticamente reduzido o numero de potros (as) portadores da M.T.A.D. – Marcha de Triplices Apoios Definidos. Os adeptos da marcha diagonalzada são iludidos pela supervalorização da regularidade, potencia da impulsão e amplitude de passadas, conceitos prioritarios na avaliação da qualidade de andamentos trotados (trote convencional, trote desunido e marcha trotada), mas não de andamentos marchados de triplices apoios definidos, nos quais a prioridade da avaliação é exatamente o que definine o Padrão Racial – “andamento a quatro tempos, de apoios alternados dos bipedes laterais e diagonais, sempre com momentos de triplices apoios”.
O Padrão Racial é homologado pelo Ministerio da Agricultura e, sendo assim, deveria ser obedecido, pois é uma lei, sob pena de futura intervenção nos julgamentos de andamentos, como ja ocorreu no SRG – Serviço de Registro Genealogico, com base nas denuncias de fraudes em pedigrees. O Registro Genealogico de cavalos de marcha trotada também é uma fraude, porque o Ministerio da Agricultura ja homologou o Padrão Racial de outra raça portadora da Marcha Trotada. Caracteristica racial não é avaliada apenas pelos caracteres morfologicos, mas tambem por andamento caracteristico.
SOLUÇÃO: FAZER CUMPRIR O PADRÃO RACIAL. ARBITRO QUE PREMIAR ANIMAL DE MARCHA DIAGONALIZADA SEM ALTERNANCIA DE DESLOCAMENTOS DIAGONAIS E LATERAIS DEVERIA SER PUNIDO PARA SERVIR DE EXEMPLO AOS DEMAIS, QUE PREFEREM ESTE TIPO DE ANDAMENTO INDESEJAVEL PARA CAVALOS CUJA UTILIDADE PRINCIPAL É O LAZER EM PASSEIOS E CAVALGADAS.
Autor: Lúcio Sérgio de Andrade, Zootecnista com especialização em equideocultura de marcha, escritor, pesquisador, arbitro internacional de cavalos marchadores.
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